Em maio, recebi uma mensagem de Lucia Hippolito, lembrando que não nos víamos há alguns meses. Ela estava certa — nosso último encontro havia sido em dezembro de 2022. Com seu habitual bom humor, enviava áudios divertidos dizendo: “Sou como um monumento público, estou aberta à visitação!”.
Uma trajetória marcada por força e serenidade
A vida de Lucia mudou completamente em 2012, quando, no auge de sua carreira como âncora do programa CBN Rio, foi surpreendida por uma grave doença autoimune. Durante férias em Paris, perdeu todos os movimentos na véspera de voltar ao Brasil. O diagnóstico: Síndrome de Guillain-Barré, uma condição que afeta o sistema nervoso e causa paralisia muscular.
Foram três meses de internação, sendo 48 dias intubada, até conseguir retornar ao Brasil — já em uma cadeira de rodas. Mesmo com todas as limitações, Lucia manteve sua elegância e senso de humor inabaláveis.
No ano passado, comemorou seu 72º aniversário, cercada de amigas, vestida com esmero e com o sorriso que sempre a acompanhou. Mas o encontro que tivemos recentemente seria diferente.
Em junho de 2023, Lucia me recebeu com o mesmo colar que eu havia lhe presenteado. No entanto, havia uma notícia difícil: em setembro de 2022, fora diagnosticada com câncer no colo do útero e submetida a uma histerectomia total, com retirada dos ovários. Embora o tumor inicial tivesse 4 cm e a recuperação parecesse satisfatória, as dores fortes na coluna e no abdômen voltaram em maio. Exames revelaram a dura realidade: metástases na coluna, abdômen e pulmão.
“O câncer se espalhou. No pior cenário, tenho mais três meses; no melhor, seis. Os médicos cogitam imunoterapia, mas se for para sair desta cama, não farei tratamento. O que não quero, em hipótese alguma, é sentir dor”, disse ela, com a serenidade que sempre a caracterizou.
Despedida com dignidade e amor pela vida
Mesmo diante do diagnóstico, Lucia se manteve firme. Redigiu suas diretivas antecipadas de vontade, documento que define quais procedimentos uma pessoa aceita ou recusa quando já não pode expressar sua decisão. Também deixou um testamento com o pedido para que suas cinzas sejam espalhadas na Place des Vosges, em Paris — cidade que amava e visitava duas vezes por ano. O desejo será cumprido por sua irmã, Regina.
“Tive uma vida plena, cheia de conquistas. Fui muito amada por Edgar (Flexa Ribeiro), meu marido há 51 anos. Não me arrependo de nada — só de não ter conhecido o Egito e a Rússia, especialmente o Museu Hermitage, em São Petersburgo.”
Durante nossa conversa, ela contou que os longos períodos de depressão deram lugar à serenidade. Falamos sobre política, séries e brindamos com um espumante espanhol. À vida, como ela sempre fez.
Lucia pediu que eu escrevesse sobre seu estado, mas que esperasse até que pudesse conversar com os mais próximos. Não houve tempo. Internada no último sábado, Lucia Hippolito nos deixou — órfãos de sua inteligência, coragem e lucidez.
O que é a Síndrome de Guillain-Barré?
Entendendo a doença
A Síndrome de Guillain-Barré (SGB) é uma doença autoimune rara em que o sistema imunológico do corpo ataca os nervos periféricos, levando a fraqueza muscular e, em casos graves, à paralisia. Costuma surgir após infecções virais ou bacterianas.
Os sintomas iniciais incluem formigamento, fraqueza nas pernas e nos braços, perda de reflexos e, em alguns casos, dificuldade para respirar. O avanço pode ser rápido, exigindo internação e, às vezes, suporte ventilatório.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico é feito por exames neurológicos, punção lombar e testes de condução nervosa. O tratamento geralmente envolve imunoglobulina intravenosa ou plasmaférese, que ajudam a reduzir o ataque autoimune e acelerar a recuperação.
A maioria dos pacientes se recupera parcialmente, mas alguns, como Lucia, podem ter sequelas permanentes. A fisioterapia e o acompanhamento psicológico são fundamentais para a qualidade de vida.
Um legado de coragem e lucidez
A história de Lucia Hippolito é um exemplo de resiliência e serenidade diante da adversidade. Mesmo enfrentando duas doenças graves, ela nunca perdeu a clareza intelectual nem o amor pela vida. Sua trajetória inspira não apenas pela carreira brilhante no jornalismo, mas pela dignidade com que enfrentou os momentos mais difíceis.


















