9,1 milhões de brasileiros sem saber ler ou escrever: o que fazer?
Num país onde o conhecimento é a chave para a liberdade, 9,1 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais ainda são mantidos à margem da educação. A triste realidade do analfabetismo absoluto, que atinge principalmente idosos, negros e pardos da região Nordeste, é apenas a ponta do iceberg. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) revelou um quadro alarmante e inegavelmente urgente para a sociedade.
Milhões à beira da exclusão: o impacto do analfabetismo funcional
Quando ampliamos o olhar para o analfabetismo funcional, a situação se agrava ainda mais. O Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) de 2024 aponta que 40 milhões de jovens e adultos, cerca de 30% da população entre 15 e 64 anos, enfrentam dificuldades para interpretar informações essenciais. Isso significa que a maior parte da população não consegue seguir orientações médicas ou até mesmo ler bulas de medicamentos, colocando em risco sua saúde.
- 55% dos analfabetos são mulheres.
- A maioria reside em áreas rurais ou em regiões de baixa renda.
- Adicionalmente, migrantes e indígenas são desproporcionalmente afetados por essa realidade.
Na prática, isso se transforma em pacientes incapazes de buscar cuidados médicos adequados, levando a um ciclo contínuo de doenças não tratadas.
Estruturas defasadas: O que está sendo feito pelo governo?
Embora existam iniciativas, elas são escassas e muitas vezes ineficazes. O modelo atual de saúde pública, baseado na Estratégia de Saúde da Família, ainda não possui programas específicos para essa população vulnerável. O sistema de Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) é ineficaz para aqueles que não conseguem ler.
Os Agentes Comunitários de Saúde, em muitos casos, são os únicos responsáveis por levar assistência a esses cidadãos. A ausência de uma política pública sólida, que trate o analfabetismo como prioridade, é uma lacuna que precisa ser urgentemente preenchida.
Soluções inovadoras: criatividade contra o analfabetismo
Um exemplo brilhante de inovação é um projeto desenvolvido por alunos de Medicina em Caçadores, Santa Catarina. Constatando as dificuldades que pacientes analfabetos enfrentavam em relação ao uso de medicamentos, o grupo criou caixas de papelão com divisórias ilustrativas que representam os horários de uso dos remédios.
- Um sol para pela manhã.
- Um prato à tarde.
- Uma lua para a noite.
Essa abordagem não só melhora a adesão ao tratamento, mas também empodera o paciente, que passa a ter mais autonomia em sua própria saúde. “Essas são soluções simples, mas que fazem uma diferença enorme na vida dessas pessoas”, afirma a professora Solange de Bortoli Beal.
Cuidado para Todos: tirando as barreiras da comunicação
Outra iniciativa promissora é a plataforma “Cuidado para Todos”, que visa simplificar a linguagem médica. Mediante ícones visuais, o projeto criado pelo Dr. Lucas Cardim e Davi Pires já está transformando a forma como os médicos se comunicam com seus pacientes.
- O site permite que médicos façam receitas com ícones que ilustram cada etapa do tratamento.
- Além disso, possibilita que informações sobre a prescrição sejam abordadas de maneira visual, tornando-as mais acessíveis.
O impacto dessa plataforma já está sendo sentido em comunidades carentes, onde reduzir a complexidade das orientações médicas fez com que os pacientes se sentissem mais confiantes e informados.
O desafio da implementação
Apesar das propostas inovadoras, ainda há desafios a serem enfrentados. As negociações com o Ministério da Saúde para que a plataforma seja incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) esbarram em questões estruturais, como a necessidade de adaptar o Prontuário Eletrônico e a falta de recursos básicos nas unidades de saúde.
A realidade dos Agentes de Saúde: os verdadeiros heróis da comunidade
No terreno, os Agentes de Saúde são a verdadeira linha de frente no combate ao analfabetismo em saúde. Eles atuam como mediadores entre o sistema e os cidadãos, trazendo informação e promovendo a educação em saúde. Contudo, suas funções vão além e incluem:
- Promoção de campanhas de conscientização.
- Realização de grupos educativos em comunidades.
Entretanto, a falta de treinamento e suporte contínuo para esses profissionais limita a eficácia de suas ações. Há uma pressing necessidade de que o governo amplie os recursos e capacitações, aproveitando o tempo de qualidade dos Agentes para realmente transformar a vida da comunidade.
O futuro: planejando um Brasil mais inclusivo
A criação da eMulti, uma equipe multiprofissional na Atenção Primária à Saúde, é um passo na direção certa. O programa busca integrar diferentes especialidades na abordagem do paciente e sua jornada de saúde, oferecendo um suporte holístico que vai além da mera prescrição de medicamentos.
O objetivo é claro: empoderar os cidadãos, promovendo independência e autonomia. “Precisamos de profissionais de saúde como guias, que ajudem as pessoas a tomarem as rédeas de suas vidas”, afirma Pedro Cruz, membro da Abrasco.
Conclusão: O que nos espera?
Em síntese, o analfabetismo no Brasil não é apenas uma questão educacional, mas uma verdadeira barreira que impede milhões de pessoas de terem acesso a cuidados adequados. A necessidade de intervir e apoiar os mais vulneráveis é urgente. As iniciativas demonstram que é possível caminhar para um futuro mais inclusivo, mas é imprescindível que mais recursos e políticas públicas sejam destinados a essa causa.
A luta contra o analfabetismo e a promoção de uma saúde mais acessível é um dever coletivo. Afinal, a saúde do Brasil depende da capacidade de todos os seus cidadãos em compreender e adotar práticas que garantam uma vida saudável e digna.


















